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Assim falou o curupira para o velho do porto

Por: Newton Matos Filho

Do alto da castanheira, despertou Curupira para mais um dia de peleja. Soltou um dos seus ensurdecedores assovios para convocar o seu porco-do-mato. De longa data, esse cateto era o veículo de condução de Curupira. Chegou a hora de partir. A sua luta pela cidade não permitia delongas.
Depois de ter percorrido longo caminho, o Protetor da Floresta encontrou um homem velho que, em outras épocas, esteve no Porto, mas agora vivia refugiado na mata. O Velho abordou o Senhor da Floresta e perguntou: “Aonde tu vais Curupira. Por que tu pretendes se aproximar dos homens? Tu já não conheces demasiadamente a vida fora da mata?”.

Curupira não demorou em responder: “Vou alertá-los para o perigo da escolha errada. Um voto pode custar anos de sofrimento e desrespeito. Há tempos, olho os semblantes dos homens e das mulheres, vejo uma insatisfação coletiva. O Povo não aceita mais tanto descaso ao qual é constantemente submetido. Sou apenas a voz que se volta contra uma contradição inaceitável: uma terra de grandes riquezas que sobrevive de migalhas…”.

O Velho não desistiu: “Curupira, tu sabes que sou desesperançado em relação aos homens. Isso te inclui, seja o que tu fores. E a ti indago: tu vens também para te empanturrar de riquezas e enganar, como os outros, o Povo? Tu agirás como eles?”.

Uma gralha se aproximou lentamente dos dois. De pronto, o Guardião da Mata não permitiu que o pássaro pousasse nos seus ombros e olhou, sem demagogia, para o homem já idoso: “Tolo. Tenho como patrimônio alguns piolhos, outros carrapatos e vários bichos-de-pé. O porco-do-mato é meu companheiro de estrada. Eu não o largaria por nada. Minha morada é no topo da castanheira. Uma árvore que não tem preço e na qual habita o meu espírito. Se ela um dia cair, eu tombo para não mais levantar. Fazendas, castelos, carros importados, viagens à Europa e comensais: são esmolas que meu espírito não aceitaria. Meu coração é rico demais para ter preço. O vil metal não pode comprar ou corromper a minha dignidade”.

O Velho não perdeu o prumo: “Tu, o dos calcanhares para frente, não te lembras dos que sentaram no trono Karipuna. Homens que sentaram na cadeira de Alcaide que diziam para os quatro cantos da Floresta e da cidade que honrariam o cargo para o qual foram eleitos. E nisso transformariam a cidade numa Pasargada da Amazônia Ocidental. Um paraíso à margem do Rio Madeira. Com o tempo, as máscaras não tardaram a cair. Os homens que se diziam do bem se tornaram homens de bens, muitos bens. Esqueceram os amigos. Trairam outros. Abandonaram a população que o elegeram. A marca registrada foi o desrespeito. E o cinismo desse homens do mal se mostrou maquiavelicamente proporcional à riqueza que acumularam”.

O Velho continuou: “Curupira, desperta-te: todos que geriram esta cidade não tiveram o menor receio de transformar esta terra fértil em um punhado de pó, para que assim pudessem ganhar mais riquezas. O que tu chamas de vil metal, eles chamam de coração do mundo. Por esse metal, eles vendem, se for preciso, a própria mãe. Não te enganes: ter uma fazenda para realizar os comensais é a ‘esmola’ pela qual todos sonham e lutam”. Depois, suplicou: “Curupira, fica na Floresta para evitar novas decepções”.

A resposta de Curupira não tardou: “Homem de pouca profundidade espiritual. Não faça da sua desesperança apenas o álibi para o silêncio. Calar-se é pactuar com os traidores de Porto Velho. Você se refugiou na Floresta e esqueceu o sofrimento de tanta gente. Lembre que você ainda é humano, demasiado humano. Por isso, também responsável pela cidade”.

Curupira profetizou: “Ao contrário de você, prefiro o embate. Vou lutar para que aqueles que traem nossa cidade recebam o tratamento devido: o exílio político ou, para alguns, a cadeia. Quanto ao homem que não cumpre as promessas, ele apenas fez o que quis e quis o que fez. Por isso, não escapará das responsabilidades. As consequências são inevitáveis. Aliás, o julgamento não tardará. E, quando chegar veredicto, o Povo vai cantar o bordão da Rainha Vermelha: ‘cortem-lhe a cabeça’

Após longo diálogo, o Velho não compreendeu que nada convenceria Curupira a ficar. Curupira, por seu turno, olhava o homem com a convicção de que ali repousava a representação de boa parte da população. Assim, chegou o momento da inadiável despedida entre os dois viventes da Floresta. Cada qual seguiria a sua escolha. De um lado, um homem revoltado que ficou atrás do muro do isolamento para não sofrer as agruras de viver em sociedade. Um espírito sensível que não mais se aproximaria dos homens. De outro, um ser que não possuía dúvida de que o engajamento era o único antídoto contra a dilapidação de sua cidade, mesmo que isso custasse substituir a tranquilidade da sábia castanheira pela vida na floresta voraz do capital.

Curupira observou de longe a silhueta do velho e refletiu: “Pobre alma, a sua sensibilidade não suportou as dores do mundo. Se soubesse que Porto Velho não é morta e que ainda pode sair do beco, esse triste homem também lutaria para que os portovelhenses não fizessem como ele: fugir da responsabilidade”.

Curupira acredita que a tragédia de Porto Velho ocorre quando o “tanto faz” e o “não é da minha conta” tomam conta dos corações. Contudo, o destino de Porto Velho é do Povo e o Povo dará a resposta e se manterá na eterna vigilância. Ao longe, uma canção vem retumbante da Floresta: “Porto Velho, afasta de ti esses meliantes, afasta de ti essas moscas, anuncia sem medo dos canalhas que aqui moram pessoas decentes.”

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