Há pais que dão aos filhos o pão. Há pais que lhes dão o teto. Há pais que lhes dão o nome. Mas existem aqueles que, além do pão, do teto e do nome, lhes dão direção. E talvez seja esta a mais difícil das heranças, porque dinheiro se transfere, patrimônio se inventaria, bens se deixam em testamento; mas caráter, discernimento e consciência da realidade precisam ser construídos todos os dias.
Neste Dia dos Pais, celebrado hoje, 9 de agosto, no Brasil, convém perguntar não apenas o que os filhos receberam de seus pais, mas aquilo que os pais estão ajudando seus filhos a se tornarem.
E aqui reside uma distinção fundamental: não basta colocar um filho no mundo; é preciso ajudá-lo a compreender o mundo.
Padre Antônio Vieira fez da palavra uma espécie de tribunal da consciência. Seus sermões frequentemente partiam das coisas aparentemente simples para alcançar as grandes contradições humanas. Guardadas as distâncias de tempo e circunstância, talvez possamos fazer semelhante pergunta aos pais de nosso tempo: que futuro esperamos colher quando nos ausentamos da semeadura?
Não há colheita sem cultivo.
Não há formação sem presença.
Não há educação verdadeira quando família e escola trabalham como mundos separados.
A PRIMEIRA ESCOLA É A CASA
Antes de conhecer o quadro, o caderno e o professor, a criança já encontrou seus primeiros mestres.
Encontrou-os em casa.
Aprendeu observando como os adultos falam, como tratam os outros, como cumprem suas promessas, como enfrentam as dificuldades e como reagem quando são contrariados.
O pai ensina mesmo quando não percebe que está ensinando.
Ensina quando respeita.
Ensina quando escuta.
Ensina quando reconhece um erro.
Ensina quando estabelece limites.
Ensina quando pergunta ao filho como foi a escola — e permanece para ouvir a resposta.
Por isso, é na educação dos filhos que se revelam muitas das virtudes dos pais.
Porque amar uma criança não significa apenas protegê-la das dores. Significa também prepará-la para compreender que o mundo possui limites, responsabilidades, diferenças, frustrações e consequências.
O amor que somente concede pode agradar no presente.
O amor que educa prepara para o futuro.
O PROFESSOR: AQUELE QUE TAMBÉM ACREDITA
Quando a criança atravessa o portão da escola, encontra outro adulto investindo em seu amanhã: o professor.
Há algo profundamente semelhante entre a paternidade responsável e o verdadeiro magistério: ambos trabalham por um futuro que talvez não cheguem a presenciar completamente.
O pai planta.
O professor também planta.
O pai orienta para que o filho um dia caminhe sozinho.
O professor ensina para que o aluno um dia já não precise dele.
Nesse sentido humano e pedagógico, o professor muitas vezes ocupa o lugar de um segundo pai: não porque substitua a família — jamais poderia fazê-lo —, mas porque também acolhe, corrige, orienta, exige, incentiva e, sobretudo, acredita na possibilidade daquele que está diante dele.
Mas existe uma condição capaz de transformar profundamente esse trabalho: a presença da família.
O professor percebe quando um aluno é acompanhado.
Percebe quando alguém olha seus cadernos.
Percebe quando existe diálogo em casa.
Percebe quando os pais conhecem suas dificuldades.
Percebe quando uma nota baixa provoca não uma condenação, mas uma pergunta: o que aconteceu e como podemos ajudá-lo?
É nesse momento que família e escola deixam de disputar responsabilidades e passam a compartilhá-las.
PAIS QUE NÃO ABANDONAM O LEME
Um filho não precisa de pais perfeitos.
Precisa de pais presentes.
E presença não significa vigilância permanente, tampouco fazer pelo filho aquilo que ele deve aprender a fazer sozinho. Significa estar suficientemente próximo para indicar os caminhos e suficientemente consciente para permitir que, progressivamente, ele aprenda a escolher.
Guiar não é aprisionar.
É oferecer referências.
É exatamente aí que os pais oferecem aos filhos algo que nenhuma tecnologia, rede social ou inteligência artificial poderá entregar integralmente: uma interpretação humana da realidade construída pela experiência.
A criança vê o acontecimento.
O adulto pode ajudá-la a compreender suas causas.
A criança recebe uma informação.
Os pais podem ensiná-la a perguntar se aquilo é verdadeiro.
A criança encontra o conflito.
A família pode ensiná-la a perceber que nem toda divergência precisa transformar o outro em inimigo.
Isso é educação.
E isso é liberdade.
Porque quanto mais instrumentos uma pessoa possui para interpretar a realidade, menos dependente fica da interpretação que outros pretendem impor-lhe.
QUANDO PAIS E PROFESSORES NÃO FINGEM
Existe, porém, uma verdade incômoda que precisa ser pronunciada.
Não podemos desejar uma educação verdadeira sustentada por fingimentos.
O aluno não pode fingir que aprende.
A família não pode fingir que acompanha.
A escola não pode fingir que educa.
E o professor não pode fingir que ensina.
O professor comprometido corrige porque acredita.
Exige porque acredita.
Repete porque acredita.
Procura outro caminho quando o primeiro não funcionou porque acredita.
E quando encontra pais que também não desistiram de seus filhos, reconhece imediatamente seus aliados.
Não há adversários nessa relação.
O professor que aponta uma dificuldade não está necessariamente atacando a família. O pai que procura a escola para compreender o que acontece com seu filho não deve ser visto como inconveniente.
Quando ambos procuram a verdade, a criança vence.
A HERANÇA QUE NÃO SE INVENTARIA
Chegará o tempo em que os filhos não precisarão mais que seus pais os levem pela mão.
É esta, paradoxalmente, uma das maiores vitórias da paternidade.
O menino crescerá.
A menina seguirá seu caminho.
Os cadernos serão guardados.
As reuniões escolares terminarão.
As preocupações mudarão de nome.
Mas alguma coisa permanecerá.
Permanecerá a voz que dizia: estude.
Permanecerá a pergunta: como foi sua aula?
Permanecerá o limite que um dia pareceu severo e depois foi compreendido como cuidado.
Permanecerá o exemplo.
Permanecerá a educação.
E quando o filho estiver sozinho diante de uma decisão importante, talvez já não tenha o pai fisicamente ao seu lado para indicar a direção. Mas, se tiver sido verdadeiramente educado, carregará consigo algo ainda mais poderoso:
o pai estará dentro de suas escolhas.
Esta é uma herança que cartório algum registra.
Não consta de inventário.
Não pode ser medida em dinheiro.
Mas atravessa gerações.
AOS PAIS, NESTE DIA
Neste Dia dos Pais, portanto, a homenagem maior deve ser dirigida àqueles que compreenderam que paternidade não é título: é responsabilidade exercida no tempo.
Aos pais que trabalham e, cansados, ainda perguntam pela escola.
Aos que comparecem às reuniões.
Aos que conhecem os professores de seus filhos.
Aos que abrem o caderno.
Aos que elogiam sem criar soberba e corrigem sem destruir a autoestima.
Aos que não entregaram aos celulares a tarefa de educar.
Aos que sabem dizer sim.
E, principalmente, aos que tiveram coragem de dizer não quando o não era necessário.
Aos que compreenderam que preparar um filho para o mundo é muito mais importante do que tentar preparar o mundo inteiro para o filho.
A esses pais, nós, professores, devemos reconhecimento.
Porque quando encontramos uma família que acompanha, não recebemos apenas ajuda para ensinar uma criança. Recebemos um parceiro na construção de um ser humano.
E talvez possamos encerrar com uma sentença que deveria permanecer muito além deste domingo:
O pai que acompanha os passos do filho hoje não escolhe os caminhos que ele percorrerá amanhã; faz algo maior: dá-lhe consciência para que, quando estiver sozinho diante das encruzilhadas da vida, saiba escolher por si mesmo.
Eis a grande obra dos pais.
Eis a grande esperança dos professores.
Educar uma criança é acreditar num futuro que ainda não podemos ver — e trabalhar, desde agora, para que ela seja capaz de construí-lo.
Feliz Dia dos Pais!
Professor Jefferson Ryan Ferreira da Silva de Sena
Ex-Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente – CMDCA

