Elas são 52% do eleitorado de Rondônia, mas ocupam apenas cinco das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa. Ao mesmo tempo, o estado registrou em 2025 a segunda maior taxa de feminicídio do país: 2,9 vítimas por 100 mil mulheres. Os números expõem duas faces de uma mesma discussão pública: a participação das mulheres nas decisões políticas e a persistência da violência de gênero.
Elas são maioria
As mulheres chegam às Eleições Gerais de 2026 constituindo a maioria do eleitorado de Rondônia.
Segundo o Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia, 52% das pessoas aptas a votar no estado são mulheres.
Essa maioria, entretanto, não se reproduz na mesma proporção nos espaços políticos.
Na Assembleia Legislativa de Rondônia, somente **cinco das 24 cadeiras** são atualmente ocupadas por mulheres — aproximadamente 21% do Parlamento estadual.
O contraste é direto:
52% do eleitorado é feminino.
Cerca de 21% das cadeiras da Assembleia são ocupadas por mulheres.
Isso não significa que exista um voto feminino uniforme ou que mulheres necessariamente votem em mulheres. Eleitoras, assim como eleitores, possuem posições políticas, ideológicas e partidárias diversas.
Significa, porém, que nenhuma análise séria sobre representação política em Rondônia pode ignorar o peso numérico das mulheres no processo eleitoral
MAIORIA PARA ESCOLHER, MINORIA ENTRE OS ESCOLHIDOS
O fenômeno não é exclusivamente rondoniense.
Nas eleições municipais brasileiras de 2024, 52,47% dos votantes eram mulheres, mas apenas 17,92% das pessoas eleitas eram mulheres.
Foram 12.331 mulheres eleitas no país. Nas prefeituras, a participação feminina foi ainda menor: somente 13,23% das pessoas eleitas para comandar os municípios eram mulheres.
Rondônia apresentou quadro semelhante.
No primeiro turno das eleições municipais de 2024, o TRE-RO registrava 647.967 eleitoras, equivalentes a 51% do eleitorado, contra 618.579 homens. Entre os 51 prefeitos e prefeitas definidos naquele primeiro turno, somente três eram mulheres.
Os números revelam uma diferença persistente entre **participação eleitoral** e **representação política**.
OUTRO NÚMERO: 2,9
Se a participação feminina no poder é uma das faces da realidade das mulheres rondonienses, a violência é outra.
E os dados mais recentes são particularmente graves.
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública referente a 2025 mostra que Rondônia registrou 2,9 feminicídios para cada grupo de 100 mil mulheres.
Foi a segunda maior taxa entre as unidades da Federação, abaixo apenas do Acre, que registrou 3,2. Mato Grosso do Sul apareceu em seguida, com 2,7.
O dado merece atenção também porque representa uma reversão em relação ao ano anterior.
Entre 2023 e 2024, Rondônia havia reduzido sua taxa de feminicídios de 2,4 para 1,5 por 100 mil mulheres, segundo o Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades.
Em 2025, ela voltou a subir para 2,9.
Portanto, a sequência é reveladora:
2023 — 2,4
2024 — 1,5
2025 — 2,9 feminicídios por 100 mil mulheres.
A VIOLÊNCIA QUE ACONTECE DENTRO DE CASA
O feminicídio é o desfecho mais extremo de um problema muito mais amplo.
Em 2024, Rondônia contabilizou 3.827 mulheres vítimas de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Isso correspondeu a uma taxa de 440,8 vítimas por 100 mil mulheres.
Embora tenha ocorrido redução de 7,7% em comparação com 2023, quando foram registrados 4.129 casos, o volume permaneceu elevado.
Outro indicador dimensiona a demanda existente.
O projeto Maria Urgente, desenvolvido pelo Tribunal de Justiça de Rondônia em parceria com a Polícia Militar, já havia atendido **mais de 25,5 mil ocorrências de violência contra a mulher** desde sua implantação, em 2020, até o balanço divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça em janeiro de 2025.
Não se trata, portanto, de episódios isolados.
Trata-se de um problema público de grande dimensão.
MACHISMO ESTRUTURAL ENTRA NA PAUTA DAS INSTITUIÇÕES
Em março de 2026, instituições do Sistema de Justiça de Rondônia firmaram um **Pacto para Enfrentamento da Violência contra a Mulher**.
Participaram Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, Procuradoria-Geral do Estado e Tribunal de Contas.
Entre os objetivos formalmente anunciados estão agilizar a concessão e o acompanhamento das medidas protetivas, fortalecer a rede de enfrentamento nos municípios e promover ações educacionais destinadas, nas palavras divulgadas pelo Conselho Nacional de Justiça, a **“desconstruir o machismo estrutural”**.
A expressão é relevante porque coloca a discussão para além da atuação policial posterior à agressão.
Violência de gênero e desigualdade de representação possuem causas e dinâmicas distintas, e não seria metodologicamente correto afirmar que aumentar o número de mulheres eleitas, isoladamente, produzirá redução automática dos feminicídios.
Mas os dois indicadores levantam questões legítimas sobre igualdade, participação política, políticas públicas e presença feminina nos espaços em que essas políticas são formuladas e fiscalizadas.
2026: A FORÇA NUMÉRICA DAS MULHERES NAS URNAS
As eleições de 2026 colocam novamente essa realidade diante de Rondônia.
Mulheres são 52% do eleitorado.
Consequentemente, constituem um segmento numericamente determinante para a formação do resultado eleitoral — embora não formem um bloco político homogêneo e distribuam seus votos entre diferentes partidos, candidatos e candidatas.
A questão democrática que emerge dos números não é dizer às mulheres em quem devem votar.
É perguntar:
por que uma maioria de 52% do eleitorado ainda corresponde a apenas cerca de 21% das cadeiras da Assembleia Legislativa?
E outra:
quais propostas os candidatos e candidatas apresentam para enfrentar uma realidade na qual Rondônia registrou a segunda maior taxa de feminicídio do Brasil em 2025?
REPRESENTAÇÃO TAMBÉM É UMA QUESTÃO DE DEMOCRACIA
A eleição oferece ao eleitorado a oportunidade periódica de decidir quem ocupará os espaços de poder.
Para as mulheres rondonienses, 2026 ocorre sob uma circunstância objetiva: **elas são maioria entre aqueles que tomarão essa decisão.**
Isso torna a discussão sobre representação feminina inevitável.
As candidaturas de mulheres podem ser examinadas com os mesmos critérios democráticos aplicados às candidaturas masculinas: trajetória, propostas, experiência, compromisso público, integridade, capacidade de representação e programas apresentados à sociedade.
Também cabe aos partidos explicar por que, mesmo depois de décadas de participação feminina crescente no eleitorado, os espaços eletivos permanecem majoritariamente masculinos.
DOIS RETRATOS DE RONDÔNIA
Os números deixam duas fotografias lado a lado.
Na urna: mulheres representam 52% do eleitorado.
Na Assembleia Legislativa: ocupam 5 das 24 cadeiras.
Na violência letal de gênero: Rondônia registrou 2,9 feminicídios por 100 mil mulheres em 2025, segunda maior taxa do país.
São indicadores diferentes e não estabelecem, por si sós, uma relação causal.
Mas juntos justificam uma discussão pública sobre a posição ocupada pelas mulheres na sociedade rondoniense — como cidadãs, eleitoras, vítimas potenciais de violência, formuladoras de políticas públicas e representantes políticas.
Em 2026, mais uma vez, as mulheres estarão majoritariamente diante das urnas.
Se essa maioria eleitoral também se refletirá em maior representação feminina nos espaços de poder será uma decisão construída, individualmente, pelo voto livre das eleitoras e dos eleitores de Rondônia.

