Brasília — Diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos sob Donald Trump — com sobretaxas de até 50% que, segundo o governo, atingem 35,9% do que o Brasil vende ao mercado americano (cerca de 4% das exportações totais do país) — o Planalto colocou de pé um conjunto de ações para proteger empregos, dar fôlego de caixa às empresas e abrir novos mercados. 
No centro da reação está a MP do Plano Brasil Soberano, um pacote inicial de R$ 30 bilhões em crédito com garantias do Fundo Garantidor de Exportações (FGE). A lógica é simples: baratear capital de giro e investimento para exportadores diretamente afetados, priorizando cadeias com maior dependência dos EUA e **condicionando o acesso à manutenção de empregos. A regulamentação começou a sair — a Portaria nº 1.863/2025 disciplinou operações para micro e pequenas exportadoras e conectou o programa a instrumentos como Pronampe/FGO.
Além do crédito, o governo abriu a carteira pública para comprar produtos que perderam mercado nos EUA — açaí, água de coco, manga, castanhas, mel, pescados, entre outros — destinando-os a merenda escolar, cestas e formação de estoques. Café e carne bovina ficaram de fora nesta etapa, sob o argumento de que conseguem redirecionar vendas para outros destinos. A medida já foi formalizada para acelerar aquisições, inclusive dispensando licitação em casos específicos.
No front externo, Brasília dobrou a aposta no multilateralismo (OMC/ONU) e na diplomacia econômica. Enquanto a Casa Branca acumulou ordens executivas para ampliar tarifas gerais e “recíprocas”, o Brasil acionou sua base legal doméstica — lei publicada em abril — para permitir contramedidas e apoio emergencial a exportadores. Em paralelo, o vice-presidente Geraldo Alckmin reuniu gigantes americanas (Amazon, Coca-Cola, GM, Caterpillar) que declararam apoio ao esforço brasileiro para reverter as tarifas — um recado de que o tarifaço também prejudica empresas dos EUA.
A busca por novos mercados ganhou velocidade. Itamaraty e MDIC intensificaram a diversificação de destinos — com foco em Ásia e BRICS — enquanto vozes do comércio exterior lembram que não há um “substituto único” para os EUA, exigindo uma estratégia de portas múltiplas e de redução do “custo Brasil”. Mesmo assim, análises indicam que a turbulência pode reorganizar rotas e abrir nichos de oportunidade para o exportador brasileiro.
Há, ainda, a dimensão política. O Planalto insiste que não aceitará chantagens e que “gosta de negociar, não de conflito”, mas não baixará a cabeça diante de imposições unilaterais. Na prática, isso significa dialogar, acionar foros internacionais, amparar empresas e trabalhadores e evitar retaliações improvisadas que encareçam insumos aqui dentro. Economistas como Dani Rodrik chamam o tarifaço de ineficaz até para os americanos, o que reforça a aposta do governo na pressão técnica e no apoio empresarial bilateral.
E o número “R$ 40 bilhões”? O valor oficial do pacote é R$ 30 bilhões (FGE). Parte da imprensa e analistas falam em esforço total chegando a cerca de R$ 40 bilhões quando se somam linhas adicionais do BNDES e outras janelas de crédito — uma conta não consolidada oficialmente, que pode variar conforme a demanda e a execução.
O que muda para quem exporta
Crédito com garantia pública e prioridade para cadeias mais afetadas; acesso atrelado à manutenção de empregos.
Compras governamentais para produtos perecíveis e agroindustriais “órfãos” do mercado americano.
Base legal para contramedidas e novas medidas de apoio aprovada pelo Congresso.
Articulação diplomática com empresas e autoridades estrangeiras para rever tarifas e abrir mercados alternativos.
No balanço, o governo tenta amparar o caixa das firmas, segurar postos de trabalho e recalibrar destinos sem cair na armadilha de uma guerra comercial. Se o tarifaço vai durar, ninguém sabe — a própria cronologia recente mostra avanços e recuos nas canetadas de Washington —, mas Brasília decidiu ocupar o tabuleiro, com dinheiro, diplomacia e compras públicas, para evitar que a conta chegue no trabalhador brasileiro.

