O anúncio de sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, sob a justificativa da investigação da chamada trama golpista, mostra que os Estados Unidos, mais uma vez, tentam vestir a toga de juízes universais. Amparado na Lei Magnitsky, Donald Trump decidiu impor um bloqueio a bens do magistrado em solo norte-americano e sobretaxar em 50% as exportações brasileiras, como se Washington fosse uma nova Casa Verde, pronta a internar aqueles que não se ajustam ao padrão que a própria Casa Branca determina.
É inevitável recordar Machado de Assis. Em O Alienista, o doutor Simão Bacamarte institui critérios arbitrários para definir quem é são e quem é louco em Itaguaí. Primeiro interna os desajustados, depois os sábios, e por fim praticamente toda a cidade. O poder absoluto que se pretende científico, mas é, no fundo,caprichoso e autoritário.
Trump veste com perfeição esse jaleco de alienista moderno. Para ele, o mundo inteiro é Itaguaí, e os que ousam discordar de sua cartilha devem ser “internados” no manicômio das sanções. Pouco importa se não há condenação judicial ou consenso internacional. A lógica é a mesma de Bacamarte: decide-se primeiro, justifica-se depois.
Alexandre de Moraes, alvo do momento, reagiu com a serenidade de quem sabe não ter nada a perder no território estrangeiro. “Não vai mudar nada”, teria dito. E de fato, para além do simbolismo político, a medida soa mais como uma encenação para satisfazer plateias domésticas nos Estados Unidos do que um golpe real contra o ministro ou contra o Supremo.
A diferença é que, no romance de Machado, Bacamarte termina internado pela própria lógica que criou. Já Trump insiste em manter-se fora das grades conceituais que ergue para os outros. Enquanto o alienista de Itaguaí sucumbe à própria arbitrariedade, o alienista de Washington se fortalece com ela.
Cabe ao Brasil e à comunidade internacional decidir se aceitarão viver sob a sombra dessa Casa Verde global ou se reagirão ao delírio classificatório de quem, em nome da liberdade, repete os gestos do despotismo.
Porque, ao fim, resta a pergunta machadiana: quem é, de fato, o louco?

